quinta-feira, 5 de junho de 2014

ESPERANÇA


A esperança é um bichinho danado.
Nós a adotamos, colocamos dentro de casa, alimentamos com a melhor comida.
Fazemos carinho, deixamos dormir na nossa cama.
Às vezes levamos para passear - é sempre bom apresentar a esperança para outras pessoas.
Algumas pessoas se apaixonam pela esperança, outras dizem - ah, esse bicho é traiçoeiro, você cuida dele com tanto cuidado e um dia, sem mais nem menos, ele foge de casa e você nunca mais o encontra.
Bobagem!
A esperança não foge não.
É que ela é um bichinho muito levado que às vezes gosta de brincar de se esconder.
Aí ela se esconde tão bem, mas tão bem, que por mais que a gente procure não consegue achar.
A gente desiste e ela, distraída, acaba dormindo um tempão no seu esconderijo.
Até que um dia a gente está limpando um armário, varrendo embaixo de um móvel, olhando papéis guardados no fundo da estante e, surpresa! Lá está ela.
Ela nos olha com olhinhos sonolentos, espreguiça gostoso como um gato, pula em nosso colo e pronto!
Voltou!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Palavras...



Ando cansada...

Tenho abusado das palavras, tenho me sentido um pouco sem freio.

Ando me expondo naquilo que acredito, mas nem sempre acreditar é justificativa suficiente para a exposição. Mas sim, ando um pouco sem freio...

Justo eu, sempre tão comedida, sempre tão cuidadosa com as palavras.

Aí elas jorram dos meus dedos e quando percebo lá estão elas, dançando na minha frente, rindo de mim, de meus pudores. Rindo porque já não me pertencem, as palavras.

Às vezes tenho ganas de enforcar essas palavrinhas debochadas, mas elas não se importam.

E dançam, e riem, e vão ficando cada vez mais longe de meu alcance.

E lá de longe acenam para que suas irmãs, palavras minhas, saiam e corram ao seu encontro...

sábado, 6 de abril de 2013

Sobre respeito e democracia


Há quem diga, erroneamente, que democracia consiste em respeitar os desejos da maioria. Não, não, não!
Democracia implica em duas coisas - respeito ao poder que emana do povo e garantia dos direitos individuais. Qualquer coisa que difira disso não é democracia, ponto final.
Assim, quando uma parcela da população tenta impor seus desejos, suas crenças, suas convicções às demais parcelas da população, mesmo que imbuída da suposta maior boa intenção, estamos nos afastando do estado democrático, e mergulhando nas trevas da ditadura (de direita, de esquerda, do fundamentalismo religioso, do fundamentalismo científico e por aí vai).
Em uma sociedade verdadeiramente democrática todos têm os seus direitos respeitados e, mais ainda defendidos.
Em vários momentos da história vivemos tempos em que o obscurantismo tenta se impor. O que chamo de obscurantismo? Exatamente a busca do cerceamento de liberdades individuais em nome de um pensamento que alguns julgam verdadeiro.
Cada um tem o pleno direito de acreditar no que quiser, de fazer suas escolhas, de encaminhar sua vida para onde quiser, desde que não cause mal a outros. E esse conceito de causar mal também é preciso que se analise com cuidado - saber que existem coisas que eu não gosto, ou que não acredito, ou que acho erradas, não me causa nenhum mal. Tentar impedir que pessoas vivam suas vidas de maneira livre, isso sim causa mal...
Ando muito cansada dessa sociedade hipócrita que fica pregando condutas, supostas éticas. Ando mais cansada ainda de pessoas que acham que são as donas da Verdade (em maiúscula, de propósito, pois para essas pessoas a sua verdade  é a única e absoluta).
Toda vez que me deparo com essas situações, eu canto baixinho, a música do Gonzaguinha:
"Se me der um beijo, eu gosto; se me der um tapa, eu grito. Se me der um grito, não calo. Se mandar calar, mais eu falo. (...) Se é amor deu e recebeu, se é suor só o meu e o teu. Verbo eu pra mim já morreu, quem mandava em mim nem nasceu. É viver e aprender, vá viver e entender, malandro. Vai compreender, vá tratar de viver.  E se tentar me tolher é igual ao fulano de tal que taí, se é pra ir vamos juntos, se não é já não tô nem aqui..."

terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre julgamentos...




Fico bastante intrigada com a forma como as pessoas reagem aos fatos. Com a facilidade com que julgam, condenam e pronto. Quase todo mundo parece ter uma firme opinião formada sobre as coisas, e, principalmente, sobre as pessoas – essa é boa, aquela é falsa, aquela outra, obviamente, é marketeira, só quer aparecer...
Que coisa incrível a capacidade que temos de apontar o dedo para os outros e, sobre eles, derramar toda nossa sabedoria, regras, julgamentos. Sentar na cadeira do juiz e de lá declarar: você está condenado, porque eu acredito, a partir de meus próprios valores, que você é culpado. E pronto.
E seguimos nosso caminho, felizes e realizados, certos de sermos pessoas conscientes, sérias, de opinião firme e imbatível.
Deus me livre dessa seriedade, dessa opinião firme, dessa capacidade de julgar!
Prefiro me manter no lugar de quem observa e evita julgar à distância.
Gosto de pensar que cada um traz dentro de si um universo e me faz muito mais realizada observar esse universo do que reduzi-lo às minhas próprias convicções.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Minhas utopias para 2012




 UTOPIAS PARA 2012

Essa deliciosa música de Tom Zé acompanha minhas utopias para 2012. 
Sim, utopias, porque desejos, tenho todos os dias...
Então tenho o sonho que em 2012 a felicidade se espalhe sobre os homens.
Sonho que as pessoas sejam mais compreensivas.
Sonho que as pessoas sejam mais capazes de perdoar, e que façam isso com sinceridade.
Que sejamos tolerantes com as diferenças, por maiores que elas sejam e que, assim,  os preconceitos sejam abolidos de vez.
Que continuemos a nos indignar perante e injustiça, a violência, a indignidade, mas que a indignação não seja mais suficiente para acalmar nossos corações, que possamos atuar para que não tenhamos mais com o que nos indignar.
Sonho com a possibilidade de viver em um mundo verdadeiramente democrático, no qual não se busque o desejo da maioria, mas o bem de cada um.
Sonho com um mundo no qual a Ética seja a palavra que comanda as ações.
É, termino 2011 partilhando minhas utopias.
Porque a felicidade é bem mais particular.
Ela é cheia de a, é cheia de é, é cheia de i, é cheia de  ó, é cheia de u......



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobre violência (ou violências)


A violência me assusta. 
Ela assume muitas faces - a mais óbvia, a da maldade. 
Somos bombardeados por ela todos os dias nos noticiários da TV, na internet, nas conversas na sala do cafezinho. 
A face má da violência nos assusta, oprime... 
Nós a reconhecemos facilmente e podemos afirmar, quase sem pensar, que a queremos bem longe de nós e daqueles que amamos.
Mas a violência tem outra face, nem sempre óbvia - aquela que vem travestida do discurso da justiça, do combate à maldade. 
E, para tanto, a solução violenta parece que se torna razoável, aceitável, e porque não dizer, louvável. 
É a violência que aparentemente seria justiicada.
Não há justificativa  para a violência.
Quem propõe o ato violento como forma de fazer justiça se iguala ao que o pratica por maldade. 
Porque, na verdade, não busca a justiça, mas a vingança.
Porque será que isso parece tão difícil de ser entendido?

domingo, 13 de novembro de 2011

Envelhecendo?



Aí, um dia, você acorda e se pergunta: e agora? Era aqui que eu queria estar? Era essa a pessoa que eu queria ser?
Fico olhando as pessoas a minha volta, pessoas que são parte da minha história, passada e atual, e vejo que estamos todos envelhecendo.
O tempo ninguém segura.
Sim, estamos bem! Estamos inteiros, vivos, fazendo coisas, construindo e reconstruindo nossa vida.
Sonhando...
Mas sim, estamos mais velhos...
Isso muitas vezes é assustador, como se a vida estivesse em correria, ladeira abaixo, sem freio.
Nunca tive medo de morrer, continuo não tendo. Mas envelhecer...
Não por conta de beleza, não tenho nenhum sonho de juventude eterna. É outro medo que não sei ao certo, e que se concretiza no envelhecimento das minhas referências de vida -  meus pais, amigos, artistas favoritos, mestres...
Minhas gírias estão envelhecendo, minhas expressões, minhas histórias...
Um misto de saudade do antigo misturada à curiosidade do novo, mas um sentimento que minhas referências estão mais ligadas ao antigo do que caminhando para o novo.
É, tenho 51 anos...