quinta-feira, 31 de março de 2011

Navegar


Gosto da vida que caminha, passo a passo, dia a dia. Gosto do jeito da vida que se insinua entre os dias que se sucedem. Gosto do conhecido da vida, que se prevê nas asas do cotidiano. Mas gosto mais do impreciso, do novo, do inesperado.
O novo nos pinta com o fogo, nos carrega com o vento, nos arrebata como um furacão.
Gosto de me sentir arrebatada.
"Navegar é preciso, viver (felizmente) não é preciso"- navegar supõe rotas, bússola, depende de precisão. Já viver é impreciso, é surpreendente...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Silêncio


Ando carente de silêncio. O burburinho, o falatório, a urgência barulhenta do dia-a-dia me incomodam cada vez mais.
Minha alma pede calma, pede sossego, pede tranquilidade.
Meus dias andam atribulados, cheios de sons que soam de maneira desconexa, desafinada.
Ando perdida da minha música interna e, talvez por isso, em busca do silêncio.

Antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
  o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor
(Arnaldo Antunes)

terça-feira, 22 de março de 2011

Tempo

Salvador Dali
Dia de expressar sentimentos que estavam guardados, dividir.
Como partilhar algo que é tão íntimo, tão pessoal?
Como tornar objetivo algo que só existe na subjetividade?
Sentimento vivido, digerido, guardado...
É interessante observar que certas sensações não desaparecem com o tempo, apenas mudam de lugar. Ganham outras cores, nuances, ocupam um outro espaço de tempo - tempo interno.
O tempo é soberano. Sei que essa frase não é nova, mas tem dias, como hoje, em que ela faz mais sentido.
Para o tempo, trago a Oração ao Tempo...              

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...
(Caetano Veloso)

sábado, 19 de março de 2011

saudade...

Saudade é um sentimento estranho... se apossa de nós de repente, devagar, e quando menos esperamos já estamos tomados por ela.


Hoje fui arrebatada pela saudade.


Uma saudade assim difusa, de pessoas, de momentos, de sonhos...


A saudade difusa é pior, porque nos deixa meio soltos; a saudade difusa não se ancora em nada, não nos permite localizá-la para poder racionalizar.


A saudade difusa é, talvez, uma saudade de si mesmo...