quinta-feira, 7 de abril de 2011

DESATINO

O dicionário nos ensina que desatino é ausência de tino, de bom senso, de juízo. Desatino significa, ainda desvario, loucura...
Quando nos deparamos com um ato de desatino, principalmente quando esse ato causa dor em pessoas inocentes, nos entregamos à perplexidade. Muitas vezes, esse ato nos causa sentimentos de desesperança... não conheço sentimento mais destrutivo que a desesperança.
Penso que a desesperança, muitas vezes, alimenta o desatino, afoga o bom senso, fortalece o desvario.
Assim, tento lutar contra a desesperança, mesmo nos momentos de maior perplexidade frente ao inexplicável, pois acho que desistir de acreditar, de lutar, de sonhar é, talvez, o maior de todos os desatinos...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Inspiração

De onde vem a inspiração? De um som? Uma imagem? Um pensamento Um sentimento? De onde vem?
Inspiração... inspirar, trazer para dentro, alimentar de ar... depois expirar as ideias.
Minha inspiração me alimenta de ar, nem sempre fresco, pelo contrário, muitas vezes quente, pesado... ar poluído.
Tenho guardado minha poluição dentro de mim, não quero que ela contamine o ambiente. Mas como evitar que ela me contamine?

terça-feira, 5 de abril de 2011

CORRENTE


Mande essa mensagem para 10 pessoas e algo acontecerá. Mande essa  imagem para quinze pessoas e peça que mandem para outras quinze incluindo você -se você receber de volta é porque tem amigos, é amado, as pessoas se importam...
Quando eu era criança colocavam envelopes com correntes por baixo da porta, com ameaças terríveis caso a corrente fosse quebrada. Minha mãe sempre quebrava as correntes e nada acontecia. Essas correntes eram anônimas, ninguém colocava seu nome no remetente do envelope.
Hoje as pessoas mandam as correntes de seus próprios emails; já não fazem ameaças terríveis, mas prometem felicidades, amizades e amores, prometem desejos realizados...
O que leva as pessoas a repassarem essas mensagens? Que tipo de sentimento, credulidade...
Sempre achei interessante a imagem da corrente, cujos elos precisam estar ligados para que ela seja, de verdade, uma corrente e não apenas um punhado de rodelinhas. Uma corrente quando arrebenta se enfraquece, perde sua função...
As correntes virtuais, no entanto,são frágeis pela sua própria imaterialidade, feitas de argolas descontroladas, sem sequencia. São apenas o desejo de ser corrente.
Será que é isso que motiva as pessoas a repassarem as correntes, sem a proteção do anonimato de antigamente? O desejo de não ser apenas uma argola, mas um elo?

sábado, 2 de abril de 2011

VIDA


Dizia John Lennon que a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos. Hoje as coisas vividas me fizeram pensar sobre a vida, e sobre o final biológico da vida. Sim, hoje estou pensando sobre a morte.
A morte bate em mim de maneiras estranhas, mas sempre me pega pelo sentimento de impotência - impotência frente à perda, impotência frente ao meu sofrimento, impotência frente ao sofrimento do outro.
A morte me pega pelo definitivo.
Sim, acredito em uma outra vida, talvez espiritual, tanto que converso sistematicamente com algumas pessoas que não estão mais aqui, concretamente, que não me pertencem mais no campo físico, mas que sinto que me acompanham.
Mas a perda física, a perda da voz, do cheiro, do toque, ah, essa é, por vezes, intolerável...
Talvez por isso cada vez mais me incorporo da certeza da fluidez da vida e da necessidade de vivê-la.
Simples assim...
E viva Cazuza, que viveu!

Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida
Vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa

quinta-feira, 31 de março de 2011

Navegar


Gosto da vida que caminha, passo a passo, dia a dia. Gosto do jeito da vida que se insinua entre os dias que se sucedem. Gosto do conhecido da vida, que se prevê nas asas do cotidiano. Mas gosto mais do impreciso, do novo, do inesperado.
O novo nos pinta com o fogo, nos carrega com o vento, nos arrebata como um furacão.
Gosto de me sentir arrebatada.
"Navegar é preciso, viver (felizmente) não é preciso"- navegar supõe rotas, bússola, depende de precisão. Já viver é impreciso, é surpreendente...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Silêncio


Ando carente de silêncio. O burburinho, o falatório, a urgência barulhenta do dia-a-dia me incomodam cada vez mais.
Minha alma pede calma, pede sossego, pede tranquilidade.
Meus dias andam atribulados, cheios de sons que soam de maneira desconexa, desafinada.
Ando perdida da minha música interna e, talvez por isso, em busca do silêncio.

Antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
  o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor
(Arnaldo Antunes)

terça-feira, 22 de março de 2011

Tempo

Salvador Dali
Dia de expressar sentimentos que estavam guardados, dividir.
Como partilhar algo que é tão íntimo, tão pessoal?
Como tornar objetivo algo que só existe na subjetividade?
Sentimento vivido, digerido, guardado...
É interessante observar que certas sensações não desaparecem com o tempo, apenas mudam de lugar. Ganham outras cores, nuances, ocupam um outro espaço de tempo - tempo interno.
O tempo é soberano. Sei que essa frase não é nova, mas tem dias, como hoje, em que ela faz mais sentido.
Para o tempo, trago a Oração ao Tempo...              

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...
(Caetano Veloso)